CITIGROUP, CRISE E PNQ

CITIGROUP, CRISE E PNQ

B.V.Dagnino*

Quem diria! O gigante Citigroup, outrora a maior e mais poderosa instituição financeira americana está em crise. Segundo o New York Times, somente em setembro de 2007 uma equipe de gestão de risco recebeu a incumbência de avaliar as dívidas relacionadas com hipotecas imobiliárias. Poucas semanas depois o Banco anunciaria bilhões de dólares de prejuizo.

Meses antes o supervisor de negócios garantiu que, com base em informações de colaboradores que preferiam permanecer anônimos (sic), não havia a menor expectativa de problemas. Ainda segundo o jornal, os gerentes de risco nunca realizaram análises com a profundidade devida: a ganância para obter ganhos de curto prazo e a postura dos executivos de receber vultosos bônus influenciavam seu julgamento.

E dizer que as filiais brasileiras do Citibank receberam duas vezes o Prêmio Nacional da Qualidade: a Unidade Global Consumer Bank em 1994, sediada em S. Paulo, e a Corporate Banking, sediada no Rio de Janeiro, em 1997. Mas naquele tempo os Critérios de Excelência não incluiam explicitamente requisitos sobre gestão de risco, pois a atenção global ainda não havia sido chamada para os grandes escândalos financeiros corporativos. Já o MEG – Modelo de Excelência da Gestão 2008 os aborda expressamente:
• 1. Liderança/ 1.1 – Governança corporativa – c) como são identificados, classificados, analisados e tratados os riscos empresariais mais significativos que possam afetar a imagem e a capacidade da organização de alcançar os objetivos estratégicos e do negócio?
• 2. Estratégias e planos/ 2.1 – Formulação das estratégias – d) como são avaliadas e definidas as estratégias da organização? – destacar de que forma a organização considera os riscos empresariais nesse processo, e insere o desenvolvimento sustentável na sua estratégia?
• 3. Clientes/ 3.1 – d) como as marcas, os produtos, incluindo os cuidados necessários ao seu uso e os riscos envolvidos, e também as ações de melhoria da organização são divulgadas aos clientes e ao mercado, de forma a criar credibilidade, confiança e imagem positiva?

O Critério 4/ Sociedade, no seu Item 4.1 – Responsabilidade Socioambiental também aborda indiretamente a questão, quando pergunta “como a organização se mantém preparada e estabelece procedimentos para responder às eventuais situações de emergência” e, adotando a ferramenta do controle de não-conformidades preconizada pelas normas ISO da família 9000, solicita “destacar de que forma os acidentes e incidentes são analisados, investigados e documentados para evitar sua repetição”.

Voltando ao NYT: segundo analistas, os altos executivos do Citigroup incentivaram uma estratégia de alto risco para expandir o negócio e obter maiores lucros; a queda do Banco levou anos para a acontecer, e ocorreu depois que o Governo dos EUA autorizou os bancos a operar em diversos novos negócios, sem que houvesse uma fiscalização eficaz. Aqueles, pois, que defendem a tese de que o mercado regula tudo, devem botar as barbas de molho.

Moral da história: adotar práticas preventivas é muito mais saudável do que remediar o desastre. Algumas medidas de precaução teriam evitado o pedido de socorro ao Tesouro, após declarado um prejuizo de 65 bilhões de dólares, mais de metade originário de hipotecas imobiliárias. Ou, como diriam nossas avós: cautela e caldo de galinha nunca fizeram mal a ninguém. Quem conhece o equivalente americano do ditado?

________________________________________________

*Chartered Quality Professional, Membro Fundador e Fellow, Chartered Quality Institute (Londres). Fellow, American Society for Quality. Diretor Técnico da Qualifactory Consultoria.