Inteligência Competitiva e Gestão do Conhecimento - por B.V.DAGNINO

Como fazer face à competição globalizada? Uma das respostas é sem dúvida gerenciar eficazmente o conhecimento na empresa, e antecipar os passos da concorrência adotando técnicas de inteligência competitiva.

Quer dizer: não basta coletar e transformar dados em informações, é necessário integrá-las, correlacioná-las, analisá-las, de forma que para a tomada de decisão estejamos de posse de todos os elementos para fazê-lo da forma mais acertada possível. Também temos de ir além do benchmarking tradicional de simplesmente nos compararmos com concorrentes e referenciais de excelência, para procurarmos antecipar e nos anteciparmos aos seus movimentos, e não meramente copiá-los ou segui-los.

Durante a Semana do Conhecimento, promovido pelo SENAI, CIET, FINEP, COPPE, INT e outras organizações no Rio de Janeiro, conceitos e experiências foram discutidas por especialistas brasileiros e estrangeiros.

Uma das principais conclusões das palestras e dos debates que se lhes seguiram é que o foco das preocupações das empresas deve ser o homem, isto é, ele precisa ser educado e treinado para compartilhar informações e adotar uma postura inquisitória. Vários casos bem sucedidos foram citados, como a AT&T (40 horas de treinamento para todos os funcionários) e a BP (que considera como diretriz de negócio que é necessário acumular conhecimento e utilizá-lo mais rápido do que a concorrência, na visão de sua Direção; o papel da cúpula da empresa foi, aliás, ressaltado em várias apresentações). Em compensação, organizações que apenas investiram grandes somas em sofisticados sistemas informatizados e não conseguiram fazer a cabeça dos funcionários amargaram grandes decepções.

Isso não quer dizer que softwares cada vez mais poderosos e sofisticados não ajudem. Aqueles voltados para a  bibliometria e a infometria, por exemplo, apóiam análises quantitativas automáticas que, a partir do número de citações de produtos, processos, serviços e materiais em bases de dados, extraem correlações e conclusões sobre quais aqueles mais promissores. Pode-se também, por exemplo, filtrar informações obtidas via Internet, nem sempre confiáveis, de forma que através de cruzamentos selecionemos aquelas com maior grau de credibilidade.

As aplicações dessas e outras técnicas em áreas as mais diversas foram mostradas. Um exemplo é a criação de um sistema integrado de informações para apoiar o combate ao crime no Rio de Janeiro, como parte do projeto Delegacia Legal.

Outro exemplo, agora em nível Brasil, é a criação de uma matriz comparativa de algumas dezenas de fatores de competitividade nacionais com os correspondentes de países concorrentes ou parceiros comerciais. Para cada par fator-país estará disponível um sumário avaliatório, a partir do qual links para detalhamento conforme necessidades específicas serão disponibilizados.

Pena é que muitos dos projetos ainda não estejam concluídos, e muitas idéias e práticas ainda careçam de amadurecimento. Indagamos, por exemplo, a diversos palestrantes quais os indicadores de desempenho que eles utilizavam para medir o grau de avanço ou eficácia da gestão do conhecimento ou da inteligência competitiva nas suas organizações, e não obtivemos sequer uma resposta convincente.

Um assunto focado por vários conferencistas foi a importância das redes formais e informais de compartilhamento de informações. Outro foi a existência de dois tipos de conhecimento, o tácito, isto é, não documentado, próprio de cada indivíduo, e o documentado.

A questão filosófica de passarmos do estágio da competição para a colaboração foi enfatizada para que a gestão do conhecimento progrida. Sob esse aspecto, esquemas de recompensas individuais nas empresas foram considerados altamente desfavoráveis ao desenvolvimento de uma mentalidade de compartilhamento.

Em resumo, a gestão do conhecimento e a inteligência competitiva têm ainda um longo caminho a percorrer. Cabe ao Brasil, tanto em nível nacional como em cada organização, acompanhar e promover seu desenvolvimento, de forma a utilizar suas técnicas para promover a competitividade através da gestão estratégica do conhecimento. A título de contribuição, a FPNQ deveria considerar a alteração do Critério 4 do PNQ de Informação e Análise para Gestão do Conhecimento, e o Item 4.2 para Inteligência Competitiva, ao invés de Gestão das Informações Comparativas.

Sugestão de olho: “ O homem deve ser o foco do desenvolvimento da gestão do conhecimento na empresa”